quinta-feira, 27 de setembro de 2007

O Mundo

Se abrires a laranja ao meio não ficarás apenas com as duas metades. Olha para a lâmina utilizada. Para a mão direita que segura no punho da faca. É assim: uma teoria do mundo tem duas partes e um ser vivo, e essa coisa viva és tu. Olha de novo para a tua mão que segura a faca que cortou a laranja em dois.
É assim: na lâmina os restos das duas metades da laranja. Misturam-se. Uma teoria do mundo? O mundo não é o nojo de um lado, e o encanto do outro: o mundo mistura. Uma teoria do mundo? A vida não está nas duas partes da laranja, cada uma caída para o seu lado; a vida está na lâmina.

domingo, 16 de setembro de 2007

A poesia não se perde
ela apenas se converte
nestas paredes tão fechadas
que nada têm p’ra me dizer.
O que os muros sociais
têm guardado para contar
ninguém quer encarar.

Somos índios na reserva que visitas
obrigado pelo donativo... não aceito!

Mas a reserva não é mãe
e no meu gueto o medo abala
todos aqueles que ainda
se recusaram a desistir
de procurar na nossa sombra
uma razão para viver
com um pouco mais de dignidade.

Somos índios na reserva que visitas
obrigado pelo donativo... não aceito!

Porque aprendemos tão cedo
a escutar as histórias
como único socorro
promissor que nos resta.

(João Portela)

sábado, 15 de setembro de 2007

Muxima

Cedida pela Morena Nicolau

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

Encosta-te a mim

Encosta-te a mim, nós já vivemos cem mil anos
encosta-te a mim, talvez eu esteja a exagerar
encosta-te a mim, dá cabo dos teus desenganos
não queiras ver quem eu não sou, deixa-me chegar.

Chegado da guerra, fiz tudo p´ra sobreviver
em nome da terra, no fundo p´ra te merecer
recebe-me bem, não desencantes os meus passos
faz de mim o teu herói, não quero adormecer.

Tudo o que eu vi, estou a partilhar contigo
o que não vivi, hei-de inventar contigo
sei que não sei, às vezes entender o teu olhar
mas quero-te bem, encosta-te a mim.

Encosta-te a mim, desatinamos tantas vezes
vizinha de mim, deixa ser meu o teu quintal
recebe esta pomba que não está armadilhada
foi comprada, foi roubada, seja como for.

Eu venho do nada porque arrasei o que não quis
em nome da estrada onde só quero ser feliz
enrosca-te a mim, vai desarmar a flor queimada
vai beijar o homem-bomba, quero adormecer.

Tudo o que eu vi, estou a partilhar contigo
o que não vivi, um dia hei-de inventar contigo
sei que não sei, às vezes entender o teu olhar
mas quero-te bem, encosta-te a mim.


Jorge Palma, in Voo Nocturno


(dedicado a N.F.)